domingo, maio 21, 2017

RAZÕES DE AMOR



Razões de amor...

I

Gosto desse teu ar tristonho,
desse olhar de melancolia,
mesmo nos momentos de prazer e de sonho,
ou nos instantes de amor e de alegria...

Gosto dessa tua expressão de ternura
tão suave e feminina,
desse olhar de ventura
com um brilho úmido a luzir num profundo langor...
Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,
tu que dás sempre a impressão de quem precisa
de proteção e amor...

Desse teu ar de menina, desse teu ar
que te faz mais mulher
ao meu olhar...

Gosto de tua voz, tranquila, do tom manso
com que falas, como se acariciasses
até as palavras que dizes;
de tua presença, que é assim como um quieto remanso,
um pedaço de sombra onde me abrigo
quando somos felizes...

Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços...

Gosto de ti assim, pequenina, macia,
quando te aperto contra mim e te sinto
minha
(inteiramente nua)
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua...

II

Gosto de ti
desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde
onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso
onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias,
brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos
para as minhas alegrias;
de teu ventre – uma enseada
– porto sem cais e sem mar –
branca areia à espera da onda
que em vaivém vai se espraiar;
de teus quadris, instrumento
de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram
as brancas asas do sexo;
– do teu corpo só de alvuras
– das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos
de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem
que só de carícias tecem
esses desejos da gente...
Gosto de ti
desesperadamente;
gosto de ti, toda, inteira
nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde
aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos
em teus pequeninos pés)
– gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és...
(J.G. de Araújo Jorge)

Foto de Sergey Ryzhkov
.

quarta-feira, maio 10, 2017

DIA E NOITE ...


Foto de Luis Milhano.


Dia
E noite
Corri pela cidade
Percorri ruas e avenidas
Becos, largos, vielas e jardins
Cambaleando, por fim sentei-me num banco
Pensativo, nervoso, indignado, pesaroso, arreliado, arrependido, teimoso
Recomecei a caminhada na tua direcção
Não queria perder-te outra vez
Corri mais esforço final
O nevoeiro cerrado
Escondeu-te bem
Perdi-te

L.M.

terça-feira, maio 09, 2017

A NEGRA



A NEGRA
.
Negra gentil, carvão mimoso e lindo
Donde o diamante sai,
Filha do sol, estrela requeimada,
Pelo calor do Pai,
.
Encosta o rosto, cândido e formoso,
Aqui no peito meu,
Dorme, donzela, rola abandonada,
Porque te velo eu.
.
Não chores mais, criança, enxuga o pranto,
Sorri-te para mim,
Deixa-me ver as pérolas brilhantes,
Os dentes de marfim.
.
No teu divino seio existe oculta
Mal sabes quanta luz,
Que absorve a tua escurecida pele,
Que tanto me seduz.
.
Eu gosto de te ver a negra e meiga
E acetinada cor,
Porque me lembro, ó Pomba, que és queimada
Pelas chamas do amor;
.
Que outrora foste neve e amaste um lírio,
Pálida flor do vale,
Fugiu-te o lírio: um triste amor queimou-te
O seio virginal.
.
Não chores mais, criança, a quem eu amo,
Ó lindo querubim,
O amor é como a rosa, porque vive
No campo, ou no jardim.
.
Tu tens o meu amor ardente, e basta
Para seres feliz;
Ama a violeta que a violeta adora-te
Esquece a flor-de-lis.
.
CAETANO DE COSTA ALEGRE
(26 de Abril de 1864 - 18 de Abril de 1890)
Poeta narural de S. Tomé e Príncipe.
.
Negra, by Marie-Guillemine Benoist (1768-1826)
.

sexta-feira, maio 05, 2017

"AMO-TE ! "




"Amo-te !" Cinco
letras pequeninas,
Um poema de amor e felicidade !
Não queres mandar-me esta palavra apenas ?
Olha, manda então... brandas... serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade ...

Florbela Espanca

quarta-feira, maio 03, 2017

O AMOR




O AMOR
.
Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria...
Clara que sem descanso esculpirei.

E noite onde sem fim me afundarei.

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Foto de Cat Free

domingo, abril 30, 2017

AMAR-TE É COMO ...



Amar-te é como ir pela manhã
A uma roseira em flor
e recolher
a mais pura, a mais fresca,
a mais louçã
das perfumadas rosas que tiver;
Ou como, a rir,
morder uma romã
Ou a sonhar colher um malmequer ...

É como caminhar por uma estrada
novinha ... ainda por inaugurar
E desenhar os pés descalços na geada,
de leve, para não a macular.
E é prosseguir assim a caminhada
sem destino ... nem pressa de chegar

...É, numa vinha, à hora do sol-pôr,
Espremer um cacho de uvas sazonado
E embriagar-me depois com o licor
delicioso do vinho derramado
A chiar no barro cheio de frescor
da taça esguia do teu corpo amado
ANTÓNIO MELENAS

Foto de Oleg Belevtsev


sexta-feira, abril 28, 2017

O tempo, subitamente solto ...


o tempo, 
subitamente solto 
pelas ruas e pelos dias, 
como a onda de uma tempestade 

a arrastar o mundo, 
mostra-me o quanto te amei 
antes de te conhecer. 
eram os teus olhos,

labirintos de água, 
terra, fogo, ar, 
que eu amava 

quando imaginava 
que amava. 
era a tua, a tua voz 
que dizia as palavras da vida. 
era o teu rosto. 
era a tua pele. 

antes de te conhecer, 
existias nas árvores 
e nos montes e nas nuvens 

que olhava ao fim da tarde. 
muito longe de mim, 

dentro de mim, 
eras tu a claridade. 
.
José Luís Peixoto

.
Foto de Vladimir Isaev
.

quarta-feira, abril 26, 2017

DESEJO


Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então! 

Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão; 

Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução; 

Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão; 

Se a fronte pura e serena
Brilhasse dinspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão; 

Se a voz fosse harmoniosa
Como dharpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção; 

E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação; 

E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria...
— A vida, o céu, a razão!

Casimiro de Abreu


Foto de Alexander Motylev

sábado, abril 22, 2017

CANTIGA PARA NÃO MORRER


.
Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve. 
.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
.
FERREIRA GULLAR
 .
Foto de Сергей 

quinta-feira, abril 20, 2017

AO CREPÚSCULO



AO CREPÚSCULO
.
Não...
Depois de te amar eu não posso amar mais ninguém.
De que me importa se as ruas estão cheias de homens esbanjando beleza e promessas ao alcance das mãos;
Se tu já não me queres, é funda e sem remédio a minha solidão.
Era tão fácil ser feliz quando estavas comigo.
Quantas vezes sem motivo nenhum, ouvi teu riso, rindo feliz, como um guizo em tua boca.
E a todo momento, mesmo sem te beijar, eu estava te beijando...
Com as mãos, com os olhos, com o pensamento, numa ansiedade louca.
Nossos olhos, ah meu deus, os nossos olhos...
Eram os meus nos teus e os teus nos meus como olhos que dizem adeus.
Não era adeus no entanto, o que estava vivendo nos meus olhos e nos teus,
Era extase, ternura, infinito langor.
Era uma estranha, uma esquisita mistura de ternura com ternura, em um mesmo olhar de amor.
Ainda ontem, cada instante uma nova espera,
Deslumbramento, alegria exuberante e sem limite.
E de repente... de repente eu me sinto como um velho muro.
Cheio de eras, embora a luz do sol num delírio palpite.
Não, depois de te amar assim,
Como um deus, como um louco,
nada me bastará e se tudo tão pouco,
Eu deveria morrer.
.
PABLO NERUDA
.
Foto de Giada Lysa 

terça-feira, abril 11, 2017

AGORA ERAS MINHA

Foto de Eugene Buzuk
O dia estava quente
Quente estavam nossos corpos
Há tanto que aguardávamos aquele momento
Memórias doutros tempos
Que nos preenchiam e excitavam
A meus braços vieste de repente
Nossos lábios se juntaram
Suspiravas colada a mim
Arfava sentindo o teu seio fremente
Nossas mãos dançavam deslizando por altos e baixos
Nesse corpo que recordo a todo o momento
Olhos nos olhos eram desnecessárias palavras
Toda entregue nada te desviava a atenção
Eras feliz naquele momento
Vivias o momento da tua vida
Realizavas o sonho de então
Finalmente possuias quem te amava
Finalmente te possuia por inteiro
Um sorriso, um olhar mais profundo
Um ajeitar de corpos e de novo
Um suspiro, um abraço, um sentir diferente
De tudo que fora até ali
Porque o sonho se materializara
Porque enfim me guardavas dentro de ti
Porque, sim, agora eras minha.



11/04/2010


L.M.


Foto de Eugene Buzuk

segunda-feira, abril 10, 2017

FOI ALI ...



Gostavas de estar ali,
À vontade, liberta , fresca.
Resguardada nas rochas
De olhares indiscretos
Só aos meus permitias que
Desvendassem segredos
Ocultos nesse corpo de deusa.
A meiguice dos teus gestos
O pormenor do teu andar
A elegância do teu corpo
Tudo eu seguia com devoção.
Foi ali, naquela praia isolada
Que numa entrega total
Soubemos o que era amar.

L.M.

13ABR2010


Óleo de William-Adolphe Bouguereau, (1825-1905) pintor acadêmico francês, 

segunda-feira, abril 03, 2017

AMOR E MEDO




AMOR E MEDO
.
Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
-”Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!”
.
Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco…
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo…
.
Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.
.
O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes,
Eu me estremeço de cruéis receios.
.
É que esse vento que na várzea – ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!
.
Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: – que seria da plantinha humilde,
Que à sombra dela tão feliz crescia?
.
A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!
.
Ai! se te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas!…
.
Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos – palpitante o seio!…
.
Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala, a protestar baixinho…
Vermelha a boca, soluçando um beijo!…
.
Diz: – que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca – sobre um chão de brasas!
.
No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!
.
Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.
.
Depois… desperta no febril delírio,
- Olhos pisados – como um vão lamento,
Tu perguntaras: que é da minha coroa?…
Eu te diria: desfolhou-a o vento!…
.
Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo!…
.
CASIMIRO DE ABREU
.
Foto de Cat Free
.

domingo, abril 02, 2017

OUVE, TU QUE NÃO ESTÁS NO CÉU


(Prelúdio, em forma de grito, para
um livro de confissões pessoais que
nunca escreverei.)
Ouve, tu que não estás no céu:
Estou farto de escavar nos olhos
abismos de ternura
onde cabem todos
- menos eu!
Estou farto de palavras de perdão
que me ferem a boca
dum frio de lágrimas quentes de punhal!
Estou farto desta dor inútil
de chorar por mim nos outros!
- Eu que nem sequer tenho a coragem de escrever
os versos que me fazem doer!
.
José Gomes Ferreira
.
foto da net

quinta-feira, março 23, 2017

A PRIMEIRA VEZ ...



Aceitaste o convite.
Encontrámo-nos.

Alguns passos dados
Demos as mãos.

Estremecemos ...
Tu coraste, eu corei.

Olhos nos olhos prosseguimos

As palavras não surgiam ...

Era a primeira vez...

L.M. /06

quinta-feira, março 16, 2017

MARIETA




Marieta
de Castro Alves



Como o gênio da noite, que desata
o véu de rendas sobre a espada nua,
ela solta os cabelos… bate a lua
nas alvas dobras de um lençol de prata.


O seio virginal que a mão recata,
embalde o prende a mão… cresce, flutua…
Sonha a moça ao relento… Além na rua
preludia um violão na serenata.


Furtivos passos morrem no lajedo…
Resvala a escada do balcão discreta…
Matam lábios os beijos em segredo…


Afoga-me os suspiros, Marieta!
Oh surpresa! Oh! Palor! Oh! Pranto! Oh! Medo!
Ai! Noites de Romeu e Julieta!…


Castro Alves


foto de Corwin von Kuhwede

quarta-feira, março 08, 2017

O ALBUM




Abri o álbum
Das recordações
Folheei-o
Arrepiado
Percorri as folhas
Olhando os rostos amarelecidos
Revi dias felizes
Sentindo saudades
Balbuceei palavras
Sem sentido
Fiz perguntas
A que ninguém respondeu
Passeei por lugares
Que já não existem
Dei o braço a quem
Já não precisa do meu apoio
Difícil continuar
A virar as folhas
Confundia as imagens
Os tempos, as pessoas
Cerrei os olhos
Fechei o álbum


                                                                       L.M.

domingo, março 05, 2017

TANTO TEMPO PASSOU ...



Tanto tempo passou ...
foi ontem, há pouco, 
na semana passada
ou noutro ano
não sei porque para mim é sempre hoje,
na dúvida, talvez ontem...

Passei por lá
olhando aquelas paredes
entrei
vi aquele quarto
e logo ali te vislumbrei
no olhar que não  engana

imagens a galope 
trouxeram momentos 
que julgava não ter vivido
teriam sido sonhos?
realidades ?
talvez...

A menina que foste
ali estava igualzinha
O tempo 
tanto tempo passou
mas tu eras a mesma
para me fazer feliz

LM 04/03/2017

Foto de Mauro Nervi
Área de anexos

quinta-feira, março 02, 2017

NO VERÃO PASSADO ...



Corria pela areia escaldante
Saltitando como pequena ave,
Elegante, sensual e amante
Atraíndo logo um olhar suave.

Atrás e mais sóbrio no andamento,
Seguia ele, sorrisos, esgares. 
Já perto um do outro lentamente
Trocaram longos cúmplices olhares.

As palavras foram curtas e poucas.
Chegaram p’ra serem apresentados.
Bem depressa s’encontraram as bocas
Trocando beijos quentes, demorados.

Momentos de luxúria e de prazer
Vividos entre os dois corpos suados
Alheios a olhos que q’riam ver,
Rolavam, loucos, na areia, molhados.

Finalmente chegou a despedida
Presos um no outro e enlaçados
Sonharam a beleza desta vida
Vida dos amantes enamorados.

Espreguiçando-se, qual sereia,
Olhos atravessando o horizonte
Ela riu estendida na areia
Sentindo o sol a bafejar-lhe a fronte.


LM – 27FEV2010 



Foto de Pascal Renoux

terça-feira, fevereiro 21, 2017

QUANDO ESTIVERES TRISTE



Quando estiveres triste,
Amor,
e não souberes porquê ...
.
E o mundo inteiro
à tua volta pareça desabar ...
.
Quando
te apetecer gritar ...
.
Quando
inexplicavelmente só
te sintas
em meio à multidão
e, perdida,
não saibas que fazer ...
.
Quando
te sentires vazia
como um balão furado,
amarfanhada
como um vestido
de baile
após o Carnaval ...
.
Quando
estiveres confusa,
indecisa,
angustiada,
como, sem mo dizeres,
eu sei que estás, por vezes...
.
Então, Amor
basta que venhas
junto a mim
e no meu peito
confiadamente
repouses tua fronte.
para eu conhecer toda a tristeza
que os teus olhos mudos
me dirão.
.
Não te farei perguntas
nem direi
as palavras idiotas
que, longe de ajudar,
só ferem, nessa altura.
.
Apenas te prenderei
pela cintura
e em silêncio,
longamente,
afagarei os teus cabelos,
.
até que a angústia
de todo te abandone
e não te sintas só,
.
porque eu estou contigo
sempre,
meu Amor.
.
ANTÓNIO MELENAS
.
Foto de Sergey Ryzhkov

HOUVE UMA ILHA EM TI


HOUVE UMA ILHA EM TI
.
Houve uma ilha em ti que eu conquistei.
Uma ilha num mar de solidão.
Tinha um nome a ilha onde morei.
Chamava-se essa ilha, Coração.
.
Que saudades do tempo que passei.
Nenhum desses momentos foi em vão.
Do teu corpo, de ti, já nada sei.
Também não sei da ilha, não sei não.
.
Só sei de mim, coberto de raízes.
Enterrei os momentos mais felizes.
Vivo agora na sombra a recordar.
.
A ilha que eu amei já não existe.
Agora amo o céu quando estou triste
por não saber, do coração do mar.
.
JOAQUIM PESSOA
.
Pintura de William Adolphe Bouguereau
.

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

PELO SONHO É QUE VAMOS



“PELO SONHO É QUE VAMOS"
.
Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
– Partimos. Vamos. Somos.
.
Sebastião da Gama.
.
Foto de Anikin Sergey.

domingo, fevereiro 19, 2017

RECORDANDO

As mãos acariciam o corpo
Como numa tarde já longínqua
Os lábios tocam-se frementes
Como da primeira vez …

Encostas-te sedutora
Com teus olhos atraentes
Teus seios quentes e macios
Trazem consigo o desejo

Um abraço solta os beijos
As bocas se confundem
Os corpos se atraem
Em maravilhoso arrebatamento

Momentos de êxtase aqueles
Que gozo nos deu
Ter-te toda para mim
Ser teu para sempre

LM – 15/02/2010


Foto de Pascal Renoux

sábado, fevereiro 11, 2017

DESPERTA

Desperta

desperta-me
de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos 
com que vergas
o sono em que me deito

é rede a tua língua
em sua teia
é vicio as palavras
com que falas

a trégua
a entrega
o disfarce

e lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes

desperta-me de noite
com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo

e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vai descobrindo vales. 

MARIA TERESA HORTA

Foto de Pascal Renoux

domingo, janeiro 15, 2017

NAVIO NEGREIRO







'Stamos em pleno mar 
Era um sonho dantesco... o tombadilho, 
Que das luzernas avermelha o brilho, 
Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros... estalar do açoite... 
Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar...
 .
Negras mulheres, suspendendo às tetas 
Magras crianças, cujas bocas pretas 
Rega o sangue das mães: 
Outras, moças... mas nuas, espantadas, 
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs.
 .
E ri-se a orquestra, irônica, estridente... 
E da ronda fantástica a serpente 
Faz doudas espirais... 
Se o velho arqueja... se no chão resvala, 
Ouvem-se gritos... o chicote estala. 
E voam mais e mais... 
Presa dos elos de uma só cadeia, 
A multidão faminta cambaleia 
E chora e dança ali!
 .
Um de raiva delira, outro enlouquece... 
Outro, que de martírios embrutece, 
Cantando, geme e ri!
 .
No entanto o capitão manda a manobra 
E após, fitando o céu que se desdobra 
Tão puro sobre o mar, 
Diz do fumo entre os densos nevoeiros: 
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros! 
Fazei-os mais dançar!..."
 .
E ri-se a orquestra irônica, estridente... 
E da ronda fantástica a serpente 
Faz doudas espirais! 
Qual num sonho dantesco as sombras voam... 
Gritos, ais, maldições, preces ressoam! 
E ri-se Satanaz!... 
Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?... 
Astros! noite! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão!...
 .
Quem são estes desgraçados 
Que não encontram em vós 
Mais que o rir calmo da turba 
Que excita a fúria do algoz? 
Quem são?... Se a estrela se cala, 
Se a vaga à pressa resvala 
Como um cúmplice fugaz, 
Perante a noite confusa... 
Dize-o tu, severa musa, 
Musa libérrima, audaz!
 .
São os filhos do deserto 
Onde a terra esposa a luz. 
Onde voa em campo aberto 
A tribo dos homens nus...
 .
São os guerreiros ousados, 
Que com os tigres mosqueados 
Combatem na solidão... 
Homens simples, fortes, bravos... 
Hoje míseros escravos 
Sem ar, sem luz, sem razão...
 .
São mulheres desgraçadas 
Como Agar o foi também, 
Que sedentas, alquebradas, 
De longe... bem longe vêm... 
Trazendo com tíbios passos 
Filhos e algemas nos braços, 
N'alma  lágrimas e fel. 
Como Agar sofrendo tanto 
Que nem o leite do pranto 
Têm que dar para Ismael...
 .
Lá nas areias infindas, 
Das palmeiras no país, 
Nasceram  crianças lindas, 
Viveram  moças gentis... 
Passa um dia a caravana 
Quando a virgem na cabana 
Cisma das noites nos véus... 
...Adeus! ó choça do monte!... 
...Adeus! palmeiras da fonte!... 
...Adeus! amores... adeus!...
 .
Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se eu deliro... ou se é verdade
 .
Tanto horror perante os céus... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão? 
Astros! noite! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão!...
 .
E existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!... 
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia?!... 
Silêncio!... Musa! chora, chora tanto 
Que o pavilhão se lave no seu pranto...
 .
Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra, 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu, que da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança, 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!...
 .
Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu na vaga, 
Como um íris no pélago profundo!... 
...Mas é infâmia demais... 
Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo... 
Andrada! arranca este pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta de teus mares!
 .

CASTRO ALVES
 .
Poeta, estudante de Direito
Nasceu:14/03/1847 - na fazenda Cabaceiras, vila de Nossa Senhora da Conceição de Curralinho, hoje Castro Alves, Bahia
Mov. Literário: Romantismo 
Faleceu: 06/07/1871 - Salvador - 

 .
Pintura de Joseph Mallord Willian Turner

terça-feira, janeiro 10, 2017

A TUA MÃO

Foto de A. Obolenski


A TUA MÃO


Beijo essa mão e ela abre o caminho
para onde me encontro e me perco,
bebendo desse cálice o puro vinho
que me liberta sem sair do cerco.

Amo a tua mão que me guia e prende,
a doce mão de tão finos dedos
a que meu desejo se rende;

e ao procurá-la, sabendo o que me faz,
deixo que me ensine os seus segredos,
e guardo-a na minha, quando ma dás.


Nuno Júdice (O Estado dos Campos)

Foto de A. Obolenski