sábado, novembro 11, 2017

CARTA A ÂNGELA - CARLOS OLIVEIRA




Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.

Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!

Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!

Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e de sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.

Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!

Carlos Alberto Serra de Oliveira (n.em Belém do Pará a 10 de Ago 1921, m. em Lisboa a 1 Jul de 1981)

quarta-feira, novembro 08, 2017

NU




Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos –

Brilham. Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu’alma
Nua, nua, nua...

Manoel Bandeira


Foto de Tailer Derden

UN SOUVENIR HEUREUX




UN SOUVENIR HEUREUX


Un souvenir heureux est peut-être sur terre
Plus vrai que le bonheur.
ALFRED DE MUSSET




Ó musa, por que vieste
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?


Não sabes o quanto dói
Uma lembrança que rói
A fibra que adormeceu?...
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minh'alma viveu.



Eu vejo ainda a janela
Onde, à tarde, junto dela
Eu lia versos de amor...
Como eu vivia d'enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!

Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir...
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair?



Minh'alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperança...
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!

Ali, amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi,
No seu colo eu me deitava...
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!

Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios, onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!



Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver...
Tão doce, que em mim sentia
Que minh'alma se esvaía...
E eu pensava ali morrer!

ÁLVARES DE AZEVEDO
1831/1852

domingo, novembro 05, 2017

A CURVA DOS TEUS OLHOS...





A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume, 
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Paul Eluard 
(1895-1952)

sábado, novembro 04, 2017

FRESCO VERGEL ...



Fresco vergel que o vento
da madrugada enflora:

As mãos são como foices
que vão ceifando a aurora.

Disperso, o amor recorda
a vida toda.

RAUL DE CARVALHO.
In Poesia.

domingo, outubro 29, 2017

SONETO DE CONTRICÇÃO




Eu te amo, Maria, eu te amo tanto

Que o meu peito me dói como em doença

E quanto mais me seja a dor intensa

Mais cresce na minha alma teu encanto.


Como a criança que vagueia o canto

Ante o mistério da amplidão suspensa

Meu coração é um vago de acalanto

Berçando versos de saudade imensa.


Não é maior o coração que a alma

Nem melhor a presença que a saudade

Só te amar é divino, e sentir calma...


E é uma calma tão feita de humildade

Que tão mais te soubesse pertencida

Menos seria eterno em tua vida.


VINICIUS DE MORAES



Foto de Игорь 

quinta-feira, outubro 26, 2017

FOI SEMPRE TÃO INCERTO ...



Foi sempre tão incerto o caminho até ti:
tantos meses de pedras e de espinhos, de
maus presságios, de ramos que rasgavam a
carne como forquilhas, de vozes que me
diziam que não valia a pena continuar, que
o teu olhar era já uma mentira; e o meu

coração sempre tão surdo para tudo isso,

sempre a gritar outra coisa mais alto para
que as pernas não pudessem recordar as
suas feridas, para que os pés ignorassem
as penas da viagem e avançassem todos
os dias mais um pouco, esse pouco que
era tudo para te alcançar. 


Foi por isso que, ao contrário de ti, não quis 
dormir nessa noite: os teus beijos ainda estavam todos
na minha boca e o desenho das tuas mãos
na minha pele. Eu sabia que adormecer

era deixar de sentir, e não queria perder os
teus gestos no meu corpo um segundo que
fosse. Então sentei-me na cama a ver-te
dormir, e sorri como nunca sorrira antes
dessa noite, sorri tanto. 


Mas tu falaste de repente do meio do teu sono, 
estendeste o braço na minha direcção e chamaste baixinho.
Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão
baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome.

.

Maria do Rosário Pedreira (Escritora e poetisa portuguesa, 1959- )

quarta-feira, outubro 25, 2017

OS SILÊNCIOS

OS SILÊNCIOS
Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo
Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo que não
digo
Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei, não te persigo
Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo

Maria Teresa Horta

segunda-feira, outubro 16, 2017

PALAVRAS MINHAS


Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

PEDRO TAMEN

Foto de Hamanov Vladimir






quarta-feira, outubro 11, 2017

VOZ DO OUTONO




VOZ DO OUTONO

Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
‑ "Mais te valera, nu e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima solidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel devesa,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!

Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba vária,

(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com ódio e raiva e dor... que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!" ‑
                


Antero de Quental


Foto de Silvia Marmori

domingo, outubro 08, 2017

TUA AUSÊNCIA




Tua ausência cala o mundo,
o mar, os ventos.
Tua ausência desaba
silenciosamente
sobre os meus dias, soterrando
meu outono…
ela magoa demais o meu sossego.
(Tua ausência é essa substância densa)
Tua ausência é tão presente que é pessoa…
E me abraça.

Marla de Queiroz


Imagem da net

















sexta-feira, outubro 06, 2017

ESCREVE-ME



ESCREVE-ME ...
.
Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta...
Como um perfume casto d'açucenas!



Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração! "Amo-te!"


Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!


Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...


Florbela Espanca
(1894-1930)

terça-feira, outubro 03, 2017



ESCREVER UM ADEUS
.
"Escrever um adeus nunca é fácil
e senti-lo é bem pior.
Agora, sem o fulgor do teu reflexo
o céu vai perdendo a luz, a vida não tem cor
e a sombra de mim quase não a encontro.
Acho que entrei num horizonte distante
onde as luzes se apagam lentamente
talvez esperando, quem sabe, um pôr de sol."
.
albino santos
( in "Entre Margens/Excerto)

quinta-feira, setembro 28, 2017

NAVEGO NOS SENTIRES



navego nos sentires,
em palavras escritas
semeadas com afectos.

.
navego no toque do prazer...
envolvida no olhar fugaz
sedento das marés do mar

.
navego nos sonhos
em encontros secretos,
nos murmúrios entre sussurros
ou nos sorrisos de um lábios ocultos

.
navego numa teia
confusa e disforme,
do lado de lá da janela interdita
sobre uma mágoa salgada.

.
navego fundida no desfrutar do silêncio
sem hora, onde sou cicuta sem segredos!

.
helena maltez

.

segunda-feira, setembro 25, 2017

JUVENÍLIA VII



Juvenília VII
.
Ah! quando face a face te contemplo,
E me queimo na luz de teu olhar,
E no mar de tua alma afogo a minha,
E escuto-te falar;
.
Quando bebo no teu hálito mais puro
Que o bafejo inefável das esferas,
E miro os róseos lábios que aviventam
Imortais primaveras,
.
Tenho medo de ti!... Sim, tenho medo
Porque pressinto as garras da loucura,
E me arrefeço aos gelos do ateísmo,
Soberba criatura!
.
Oh! eu te adoro como a noite
Por alto mar, sem luz, sem claridade,
Entre as refegas do tufão bravio
Vingando a imensidade!
.
Como adoro as florestas primitivas,
Que aos céus levantam perenais folhagens,
Onde se embalam nos coqueiros presas
.
Como adoro os desertos e as tormentas,
O mistério do abismo e a paz dos ermos,
E a poeira de mundos que prateia
A abóbada sem termos! ...
.
Como tudo o que é vasto, eterno e belo;
Tudo o que traz de Deus o nome escrito!
Como a vida sem fim que além me espera
No seio do infinito.
.
FAGUNDES VARELA
.
Foto de Aaron Gershon

segunda-feira, setembro 18, 2017

ESCREVO, NAS FOLHAS GASTAS DA MEMÓRIA ...





escrevo, nas folhas gastas da memória
amarelecidas, pela secagem
de um tempo
cansado


escrevo, com tinta fresca
para te sentir presente,
quando o sol
despontar


escrevo, no meu próprio sono
como se fosse voragem
sonhando nos teus braços
apressada


escrevo, nas estrelas
os teus olhos brilhantes
os espaços que damos em insónias
perigosas


escrevo, na chama cortada
por uma voz escutada,
entre os nossos olhares
cúmplices


escrevo,
perco-me em ti
e não trago mapa


helena maltez

foto de Irina Z

terça-feira, setembro 05, 2017

AS PALAVRAS DEVERIAM TER ASAS ...





As palavras deveriam ter asas,
a cor das borboletas,
o perfume das rosas de Maio.

Não me interessam os verbos
com demasiados tempos e modos

Quero escrever um poema
e ressuscitar em ti a Primavera!

ALBINO SANTOS

sexta-feira, setembro 01, 2017

O NOSSO TEMPO ...



Quanto tempo passou...?

Onde andaste ...?

Onde eu andei ...?

Não sabias de mim...

Nada sabia de ti...


E o tempo continuou a passar...


A tua imagem perdurava em meu coração...

Tu também não me esqueceste....

Muito tempo passou....


O amor, por ti, mantinha-se...

Continuavas a amar-me...


Novos rumos tomámos...

O tempo ganhou tempo....

Os dias fizeram anos...


O destino quis que nos reencontrássemos...

O destino quis apagar seus erros do passado...


O tempo, por momentos, parou...

Deixou-nos ser felizes por um tempo...


Mas o tempo é imparável...

E o destino também...

A vida continuou seu rumo...

Com lembranças mais vivas...

Que o tempo não pode apagar...



Luis Milhano (Lumife)

31 Agosto 2010


Foto de Vlad Belin

quarta-feira, agosto 30, 2017

VIRGÍNIA



VIRGÍNIA

Embora o sol fosse alto ainda, áquela
hora já dali desertara, as sombras iam
saindo aos poucos de debaixo dos armários.
De vez em quando as mãos, completamente absortas,
detinham-se no ferro, sobre a tábua, ao lado
do gigo agora esvaziado e dos pesados
tabuleiros de verga, onde se erguia a roupa.
Tornavam-se mais nítidos, assim, os seus
contornos recortados contra a luz.
Dali podia-se avistar o mundo inteiro.
Ao longo dos telhados, por onde um ou outro gato
corria atrás das pombas, oscilava
ligeiramente a corda, onde a cidade, o céu
e os montes pareciam pendurados.



Luís Miguel Nava

1957/1995


Foto de Miahaell

segunda-feira, agosto 28, 2017

Lúcida, a manhã canta na tua voz de prata,




Lúcida, a manhã canta na tua voz de prata,
Meu amor perdido que a saudade aquece.
Na cidade exangue donde eu vim poeta
Lembro a voz do vento que hoje me entristece...

Lembro as tuas faces, meu amor ausente,
Que a lembrança guarda no seu fumo triste,
Que paisagens novas me fizeram pobre
Nesta alma exausta que hoje em mim existe.

Ó sol, meu padrinho, flor do céu!
Que alegria, amor, quando o sol perdoa.
Há gemidos novos na paisagem nova
Meu amor perdido que em minha alma soa.

Antunes da Silva, Canções do Vento

domingo, agosto 27, 2017

APELO



APELO
.
Atravessa os caminhos da noite
e vem.
.
A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.
.
Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.
.
Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.
.
Atravessa os campos da noite
e vem.
.
Luísa Dacosta, 
.
in CEM POEMAS PORTUGUESES NO FEMININO, (Terramar, 2005)
.
Luísa Dacosta,
.
in CEM POEMAS PORTUGUESES NO FEMININO, (Terramar, 2005)

quinta-feira, agosto 24, 2017

A PALAVRA QUE DESNUDO




Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo


Mia Couto

Art de Arsen Kurbanov

terça-feira, agosto 22, 2017

ABRAÇO IMAGINADO



ABRAÇO IMAGINADO
.
um abraço imaginado pousou-me hoje no peito
e trouxe com ele o teu jeito
de chegar
de sonhar
de gostar
com um gosto tão perfeito
cegou-me no seu apertar
incessante
ofegante
de tonalidade brilhante
lembrando um vento solar
.
por ofuscar-me o olhar
com seu brilho penetrante
as lágrimas que escorreram
por sentir teu abraçar
eram como estrelas d’água
com o sol a cintilar.
um abraço imaginado, deixou-me hoje sozinho
com as mãos tocando o nada
o corpo sem uma morada
e a alma em desalinho
.
Nuno Guimarães, in Pedaços de ti-
.
Arte de Audrey Kawasaki

domingo, agosto 20, 2017

UM BREVE SOPRO


Um breve sopro,
talvez uma ténue aragem
um rumor de pássaro iniciando um voo
quiçá um nenúfar suspenso na aguagem
do rio desfalecido que já sou.

Um leve, quase impercetível pulsar
na fímbria esquecida do coração
um velho mas renovado despertar
no tardio florir do desejo e da paixão.

Um instante riscado no cristal do tempo
talvez um tempo vestido pelo avesso
quem sabe se o amargo deslumbramento
que sinto e desencanto em cada verso.
.
Miguel Afonso Andersen, in A aparição de Sofia

segunda-feira, agosto 14, 2017

AQUELA JANELA



AQUELA JANELA...
.
Aquela janela...
Onde meu corpo vergado
Acolhia teu busto enamorado.
.
Aquela abertura...
Onde o luar espreitava
O reflexo dos teus olhos quentes de lava.
.
Aquele sítio...
Onde o calor dos nossos beijos
Ateava o fogo da paixão e dos desejos.
.
Aquela janela...
Onde sonhos se construíam
E sorrisos se fundiam.
.

Aqueles momentos...
Em que o silêncio imperava
Loucuras mil se sonhava...
.
Aquelas horas...
Minutos fugidíos, fugazes,
De que felicidade éramos capazes...
.
Aquela janela...
Virada para o silêncio da rua
Onde o amor sucedia sob os olhos da lua.
.
Aquelas paredes...
Mudas testemunhas de um beijo,
Duma carícia, duma despedida, dum desejo.
.
Aquele silêncio, aquela rua,
Aquela janela, aquela felicidade,
Tudo desapareceu com a cidade...
.
Aquela janela, aquele silêncio,
Aquela rua... indeléveis companheiros meus,
Perene confirmação do último adeus.
.
Aquela janela...
Chaga viva, magoa sempre, até fere.
Impossível aceitar o que o destino quer.
.
Aquela janela...
Orvalhada por lágrimas doridas,
Expiadas e sofridas.
.
Aquela janela...
Um dia se abrirá de par em par
Afastará a tristeza, a dor e a saudade
E deixará o Sol entrar...

.
06 de Abril de 2006
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Luis Milhano (Lumife)

Foto de João Torres